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CARVALHÃO

“Ai, Carvalhão”, suspirava Joana cada vez em que via aquele guincho vermelho passando, cujo braço forte do motorista aparecia apoiado na porta. Como era baixinha (e gordinha), olhava o bração musculoso e bronzeado nas camisas de ombro de fora, com aquela costura desfiada, mas não alcançava seu rosto. “Carvalhão”, escrito na porta em tinta branca junto com o telefone, já salvo no seu celular, a fazia sonhar lendo sua lista de contatos enquanto ficava esperando o ônibus chegar.

Numa festa de aniversário do amigo Serginho, apelidado de Gloss (ele adorava, tinha uma coleção de tudo quanto é cor e sabor), afundada no sofá já gasto e murcho da casa, queria ir ao banheiro. Mas, cadê que conseguia se levantar? Aquele monte de gente em pé na sua frente, ninguém percebendo seu desconforto, aí gritou: “- Preciso de um Carvalhão!”. Eis que surge um bração com camisa de algodão xadrez desfiada na costura do ombro, um braço que parecia que a voz saía de dentro dele: “- Carvalhão a seu dispor!”. “Será que é ele?”, pensou? Deu a mão com um pouquinho de afetação, como se fosse receber um beijo no dorso antes de ser arrancada do sofá, quase voando, tamanha a potência do guincho! Até pensou que iria desmaiar com o frio na barriga que lhe deu tal a rapidez da operação. Mas o risinho nervoso ela não conteve. Ainda se recompondo, antes de virar-se para dizer “Obrigaadaa” com todo o charme de que dispunha, olhou ao redor, mas o cara já ia de costas, com um amigo.

O chão ainda rodando, pensou que cairia, deu uns três passos tronxos, de lado, encontrou uma parede. E aí, logo pensou em quem é que convidara aquela “coooisa”, o Carvalhão? Aliás, era ele, de fato? Viu Gloss indo lá para fora onde estava o churrasco, mas em meio à fumaça, em vez do amigo, avistou foi o guincho, todo vermelho, brilhando, estacionado. Caminhou como hipnotizada em sua direção, abriu a porta, escalou o banco, calcinha aparecendo, mas ela nem aí. Sentou-se na direção, passou-lhe a mão pensando que era ali onde ele se sentava e girava pelas ruas com aqueles braços… “Ai, Carvalhão… Eu queria era ser o seu volante para você passar a mão em mim o dia inteirinho!”. Olhava fascinada ao redor: o forro do teto, o crucifixo no espelho, ligou o rádio. Tocava uma música romântica, recostou-se, fechou os olhos para sonhar mais um pouco e pensar na hora em que contaria tudo para o Gloss, que morreriam de rir, até se esqueceu da festa.

“- Que isso, minha filha?!”, bradou um vozeirão. Joana deu um salto, “Aiiii, que susto!!!!”, gritou bem no estilo mulherzinha, em resposta. Mas ainda conseguiu dizer: “Desculpe, seu Carvalhão, mas tava aqui apreciando seu volante, tão bonito, preto, lisinho…”. “Então, VAZA, minha querida, que eu já partindo!”. Então reparou que ele não estava sozinho. Havia outro “Carvalhão” com ele e que ambos usavam uma aliança grossa e prateada no dedo da mão esquerda.

Joana ficou ali, sentindo-se mais baixinha do que nunca, boca entreaberta, vendo o guincho partir com os dois Carvalhões. “Gloss!!!!!”, gritou, correndo através da fumaça do churrasco.

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SOBRE HOMICE – AMÁLIA RODRIGUES

Amália Rodrigues era uma cantora portuguesa de fados com voz poderosa e lamuriosa, conforme esse tipo de música pede. Na casa de Valentina havia um disco seu, com ela na capa, sem dúvida era uma mulher bonita e interessante.

Nos fins-de-semana, o pai de Valentina passava horas escutando aqueles fados no volume máximo, obrigando todos a ouvir. Ficava de olhos fechados, com a cabeça apoiada nos dedos de uma das mãos, daquele jeito dramático que só ele tinha. Hoje já sabemos que ficava sonhando com a cantora, pois já no final de sua vida contou a seguinte história:

“Certa vez eu estava em São Paulo e fui a um show da Amália Rodrigues. Era um teatro com palco baixo e mesas. Ao final do show, ela sempre escolhia um homem da plateia para jantar com ela, e EU fui um desses escolhidos!”, se gabava, como se não tivesse só jantado com ela. Homice pura!

É muito provável que essa história, de tanto ser sonhada por ele, acabou tornando-se realidade, pois pelo que se sabe, Amália era gay; além disso quando, na década de 70, uma mulher que não era sequer atriz de Revista ou de um cabaré, convidaria um homem para lhe acompanhar num jantar após o show, fato comunicado logo de início. Bem, verdade ou não, era assim que ele contava.

Nossas vidas são repletas de sonhos, alguns se realizam, outros não. Nem que sejam em meio a uma bruma que esconda a realidade nunca conhecida na carne, mas na alma e no coração.

(Imagem: www.discosvinil.com.br)

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VALENTINA NA ESCOLA E OS GAROTOS APAIXONADOS

Essa é da época em que Valentina tinha seus 13, 14 anos. Embora muito jovem, já era uma pessoa decidida e sensível ao mesmo tempo. Gostava de esportes, corria muito bem na pista de atletismo na escola, nadava, mergulhava, era muito destemida. Comandava a turma, tinha muitas amigas e alguns poucos amigos, digamos assim. “Alguns” eram os garotos mais descolados e engraçados, os demais, bem, os demais ela não curtia muito. Por quê, você pergunta? Continuar lendo

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CARTAS E TELEFONEMAS ANÔNIMOS

Esta história é de um tempo em que os emails não eram assim meios de comunicação expressivos e que identificadores de chamada, primeiramente conhecidos como “binas”, eram coisas mais raras ainda. Entretanto, ainda era época em que uma mulher mandava cartas anônimas de amor e dava telefonemas de madrugada para uma suposta amante (ela acreditava nisso) do homem pelo qual se apaixonou platonicamente: Continuar lendo

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