Arquivo do mês: outubro 2015

CARVALHÃO

“Ai, Carvalhão”, suspirava Joana cada vez em que via aquele guincho vermelho passando, cujo braço forte do motorista aparecia apoiado na porta. Como era baixinha (e gordinha), olhava o bração musculoso e bronzeado nas camisas de ombro de fora, com aquela costura desfiada, mas não alcançava seu rosto. “Carvalhão”, escrito na porta em tinta branca junto com o telefone, já salvo no seu celular, a fazia sonhar lendo sua lista de contatos enquanto ficava esperando o ônibus chegar.

Numa festa de aniversário do amigo Serginho, apelidado de Gloss (ele adorava, tinha uma coleção de tudo quanto é cor e sabor), afundada no sofá já gasto e murcho da casa, queria ir ao banheiro. Mas, cadê que conseguia se levantar? Aquele monte de gente em pé na sua frente, ninguém percebendo seu desconforto, aí gritou: “- Preciso de um Carvalhão!”. Eis que surge um bração com camisa de algodão xadrez desfiada na costura do ombro, um braço que parecia que a voz saía de dentro dele: “- Carvalhão a seu dispor!”. “Será que é ele?”, pensou? Deu a mão com um pouquinho de afetação, como se fosse receber um beijo no dorso antes de ser arrancada do sofá, quase voando, tamanha a potência do guincho! Até pensou que iria desmaiar com o frio na barriga que lhe deu tal a rapidez da operação. Mas o risinho nervoso ela não conteve. Ainda se recompondo, antes de virar-se para dizer “Obrigaadaa” com todo o charme de que dispunha, olhou ao redor, mas o cara já ia de costas, com um amigo.

O chão ainda rodando, pensou que cairia, deu uns três passos tronxos, de lado, encontrou uma parede. E aí, logo pensou em quem é que convidara aquela “coooisa”, o Carvalhão? Aliás, era ele, de fato? Viu Gloss indo lá para fora onde estava o churrasco, mas em meio à fumaça, em vez do amigo, avistou foi o guincho, todo vermelho, brilhando, estacionado. Caminhou como hipnotizada em sua direção, abriu a porta, escalou o banco, calcinha aparecendo, mas ela nem aí. Sentou-se na direção, passou-lhe a mão pensando que era ali onde ele se sentava e girava pelas ruas com aqueles braços… “Ai, Carvalhão… Eu queria era ser o seu volante para você passar a mão em mim o dia inteirinho!”. Olhava fascinada ao redor: o forro do teto, o crucifixo no espelho, ligou o rádio. Tocava uma música romântica, recostou-se, fechou os olhos para sonhar mais um pouco e pensar na hora em que contaria tudo para o Gloss, que morreriam de rir, até se esqueceu da festa.

“- Que isso, minha filha?!”, bradou um vozeirão. Joana deu um salto, “Aiiii, que susto!!!!”, gritou bem no estilo mulherzinha, em resposta. Mas ainda conseguiu dizer: “Desculpe, seu Carvalhão, mas tava aqui apreciando seu volante, tão bonito, preto, lisinho…”. “Então, VAZA, minha querida, que eu já partindo!”. Então reparou que ele não estava sozinho. Havia outro “Carvalhão” com ele e que ambos usavam uma aliança grossa e prateada no dedo da mão esquerda.

Joana ficou ali, sentindo-se mais baixinha do que nunca, boca entreaberta, vendo o guincho partir com os dois Carvalhões. “Gloss!!!!!”, gritou, correndo através da fumaça do churrasco.

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RAPIDINHA 57: DOIS HOMENS, UMA MULHER, DUAS VISÕES

“Sabe o que meu nome quer dizer? Claudia significa aquela que manca…”

O homem filósofo disse: “Pois o homem que manca está muito mais perto do homem real do que aquele que bate os recordes mundiais, minha querida Claudinha…”

O homem piloto de avião disse: “Que nada, Claudia é nome de mulher assim, bonita, gostosa… Vem cá…”

O primeiro se chamava Leandro. O segundo Leonardo. Mas não davam uma dupla para nada.

 

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ATÉ TU, KATY PERRY?!

Quem já assistiu a alguma aparição da jovem cantora Katy Perry não pode deixar de perceber que trata-se de uma graça de artista. Pois bem, um dia desses assisti a um filme/documentário sobre sua turnê, aquela em que ela entra com um vestido branco com desenhos de espirais vermelhas que giram, uma fofura, bem no espírito de sua notável brejeirice.

Mas eis que no meio do filme aparece um namorado que adentrou o coração da lady… Uma profissional brilhante no topo de seu talento (você pode gostar ou não de suas músicas, mas a moça compõe, canta direitinho, tem carisma e alegria, e ainda parece dizer não  à ideia de que magreza é lindeza – adoro isso, dela ser fortinha; ajuda até a compor mais sua brejeirice), chorou a ponto de quase não conseguir entrar no palco, pois mesmo com todos os adjetivos acima, quase morreu para o mundo e sua carreira, quando o tal charm-boy resolveu dispensá-la.

Até tu, Katy Perry, caindo no conto do príncipe encantado como o verdadeiro alicerce da felicidade de uma donzela?!?! Que nada, ou melhor, tudo que possui de maravilhoso e muito batalhado por você, perde qualquer valor por causa de um principezinho? Não, Katy querida, você não pode mais deixar isso acontecer com você. Você pode chorar, ficar mal, mas não a ponto de tudo de super bacana que você lutou e luta para conseguir perca todo o sentido, e sobre apenas a ideia infame de que uma mulher só vale algo, só é feliz e realizada, se tiver um homem. Não, Katy, você não pode fazer isso com você e nem com as meninas e moças que lhe têm como ídolo e modelo. Sei que é duro, mas se não querias ter essa responsabilidade bastava ser uma Valentina qualquer.

Nos contos de fada as heroínas travam todas as batalhas com dragões, bruxos e madrastas; ficam suadas e de vestidos rasgados, mas no fim disso tudo vem um príncipe cheirando a sabonete e cabelos escovados e faz com que, agora sim, a fera num copro de mulher torne-se algo em que, a partir disso, pode ser feliz.

Katy Perry, em sua forma de Branca-de-Neve, deveria lembrar-se, sempre em que achar que a vida perdeu todo o sentido por causa de um príncipe cheirando a sabonete, que ter um companheiro é maravilhoso, mas a vida é muito mais do que isso. Branca-de-Neve era muito amada pelo Caçador e os 7 Anões, e era muito feliz. Espero que você, e todas as mulheres, consigam ver mais sentido na luta da vida e das pessoas que as amam.

Katy Perry, abuse de sua graça e seja feliz a cada vez em que mobiliza pessoas com sua alegria.

 

 

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