Arquivo do mês: maio 2013

MULHERICES FOREVER (homenagem à Guégue e Niz Pólis)

Eram duas amigas, aliás primas-irmãs. Já passavam dos sessenta anos, mas ainda curtiam a vida e a companhia preciosa uma da outra. Cheias de mulherices, como estarem bem vestidas e usarem chapéus, não perdiam o hábito de saírem para lanchar ou mesmo de viajar para a Europa, pois Estados Unidos já havia se tornado punk demais para elas.

Amavam inventar histórias. Quando iam para Veneza, cidade sempre visitada, riam dos romances tórridos com que sonhavam quando eram casadas ainda, antes de se tornarem viúvas. Se imaginavam encontrando um homem que lhes pegassem a mão e as conduzisse a uma gôndola. Quando em Gramado, seria um gauchão daqueles que lhe puxariam para dançar batendo botas e dando-lhes apertos pela cintura.

Desde crianças (tipo com quatro anos) eram dadas a essa brincadeira: contar histórias uma para a outra, repartindo fantasias e sonhando juntas. Até quando uma ia ao banheiro, a outra acompanhava e contava histórias de elefantes que invadiam o pátio do jardim de infância e a outra, sentada no vaso, acreditava. Mas a que contava também.

Na juventude sonhavam com um Lô Borges romântico ou um surfista gato. Entre os vinte e trinta se casaram e tiveram uma filha cada uma. Aos trinta e poucos, aspiravam apenas curtir uma praia e assistir comédias românticas para alimentar sonhos e alegrias. E assim foram, juntas, amigas; aos quarenta e poucos nem precisam mais falar para saber o que a outra pensa. Certa vez riram tanto no Mac’Donalds que nenhuma pessoa se sentou à mesa ao lado, com olhar de estranhamento.

Suas filhas únicas as amam, e ainda bem que também se amam, são amigas, aliás, como irmãs, primas-irmãs.

Hoje, já com muita idade, ainda riem juntas, criam histórias, relembram outras, as vividas e as inventadas, bebem Coca Diet, comem salgadinhos finos e curtem seus modelitos parecidos, tal como faziam quando bem pequenas, quando usavam, como se fosse um pacto de sangue, cada qual um pé do chinelo florido da outra, formando pares compostos por Havaianas vermelha e azul.

E lá se vão, pela vida afora, repletas de mulherices, enquanto as Parcas continuarem a tecer o fio de suas vidas.

(Imagem de Ruth Orkin)

 

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MENINAS DA ROÇA, MULHERES DA CIDADE

Ouvir memórias de infância é algo que me fascina. Aqui, nas cidades do Espírito Santo, quase todas as mulheres com quem conversei sobre suas infâncias começavam dizendo: “A minha infância foi na roça…”. E lá vinha muita brincadeira na lama, caveiras de mamão, crueldades com primos e irmãos, biscoitos de avó, aranhas, bonecas de espiga de milho, TV só muito depois, enfim, infância na roça. Mas hoje elas estão na cidade, sendo do interior ou não do estado, e não se percebe mais tais vestígios, só mulherices contemporâneas e urbanas, tais como roupas da moda, cabelos escovados, papo aberto, medos de escada rolante, de elevador, calças saruel, maridos, namorados…

Muito interessante pensar que essa “infância na roça”, apesar de ter ficado para trás na voz dessas mulheres (a maioria ainda tão jovem), é motivo de orgulho, uma espécie de luxo: brincar de pés descalços no rio, correr pelo mato… Amazonas do Espírito Santo, eu poderia assim chamá-las.

Mas é quando riem, quando falam besteiras, quando trocam mulherices, que ainda consigo enxergar aquele espírito livre de quando eram crianças. E vem o cheiro de bolo, do leite queimado, a fala da mãe que quando não queria proibir algo apenas dizia “porta-me-lá” (não me importa que você vá, mas eu não aprovo). Entretanto, ao mesmo tempo as perco de vista, as Amazonas, que ficam à sombra das mulheres da cidade.

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TOCAR SOZINHA NA MADRUGADA

Ela não dorme se não pegar seu violão e tocá-lo um pouco. Como uma canção de ninar, cada acorde ressoa desligando um a um, seus plugs e botões. Prefere as madrugadas, quando o silêncio deixa o violão cantar ou chorar para o seu coração agitado, que bateu a mil durante o dia, com seu corre-corre.

Muitos devem achar que se trata de uma solitária, mas aqui não é o caso. Ela apenas é uma mulher que precisa ficar consigo mesma, nem que seja por alguns minutos à noite. Não toca para ninguém, não precisa se mostrar. Basta ouvir o que cada encontro com seu violão, a noite pode lhe sussurrar, lembrando-lhe que sobreviveu a mais um dia de missões cumpridas, mais um dia que merece um brinde: de cordas e batidas de um coração, enfim, que precisa desacelerar.

Ângela, é seu nome. Quem olha para ela não consegue imaginar que seu corpo atlético (jogou vôlei dos 10 aos 23 anos) é capaz de buscar sossego e paz de madrugada, apenas com um violão. E ela mesma.

Que mulherice é essa? A de uma mulher vibrante durante o dia, mas que busca, no silêncio da madrugada, um azul que se espalhe saindo de dentro de seu violão.

(Ângela vive em Aracruz, ES. Essa história é verídica)

(Imagem:cinematicabr.blogspot.com)

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RAPIDINHA 30 – DISCUTE DEPOIS

Um amigo me contou que a mulher está discutindo muito com ele. Na sua sábia homice lhe disse:

“Vamos parar de discutir e fazer sexo, pois daqui a pouco, quando eu não conseguir mais trepar, a gente vai ter todo o tempo do mundo para discutir”!

(Imagem: mdemulher.abril.com.br)

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MULHERICES EM COLATINA

Hora do almoço, restaurante a quilo em Colatina, ES. Mesas lotadas, encontrei uma com dois lugares e os outros dois ocupados por moças bem vestidas, maquiadas e bonitas, lá com seus vinte e poucos anos. Conversavam sobre não dar mole para homem, bem como no texto que já escrevi sobre pagar para homem. Falavam que homem, se a gente deixar, se encosta mesmo, que uma amiga deixou o cara ir morar na casa e agora ele não quer sair e, pior, desempregado (mas já era assim antes).

Eu, com essa lupa de buscar mulherices, não aguentei e pedi licença para entrar na conversa e disse: “Homem desempregado, sem grana, para quem quer algo mais na vida, é melhor nem começar”! As duas, com aqueles olhos que só a juventude tem, me olharam e imediatamente concordaram comigo. E a nossa conversa não parou enquanto havia comida em nossos pratos.

Assuntos mais cheios de mulherice, impossível: “um homem que faz algo com uma mulher, como trair, por exemplo, vai trair depois, também”? “Mas como saber se o cara vai fazer algo com a gente depois”? A essa última, lembramos que há vários sinais, salvo que o cara seja um psicopata ou um canalha mais do que profissional. Os que agridem, por exemplo, se pode perceber como tratam as pessoas, outras mulheres, ou a nós mesmas; gritam, arrancam coisas de nossas mãos, nos chamam de idiotas… E isso é no começo! Então, é melhor parar, pois a tendência é piorar. Uma delas disse que tem uma amiga cujo marido não permite que ela faça nada, hoje nem amigos mais tem. Que no início do namoro ele era um pouco assim, mas hoje está insuportável. Era disso que falávamos. Há sinais, mas o que é  que queremos, de fato, enxergar?

Pois é, as moças sabiam bem o que queriam dos homens, e na lista estavam incluídos não matar, não nos roubar, não nos trair, não nos agredir, não nos cercear. Amei esse momento com elas, com moças de uma cidade do interior do Espírito Santo, empregadas, arrumadas, bonitas, cheias de vigor. E o melhor, tão certas do que deve ser uma relação saudável com um homem.

(Imagem: www.sabrinamix.com)

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PULOU A JANELA E FOI SE VINGAR

Ela já tinha 47 anos quando fez uma coisa de adolescente: fugiu pela janela à noite para encontrar um ex-amor.

Num misto de vingança com curiosidade, decidiu ligar para um ex-namorado, daqueles que a gente nunca esquece. O marido a traía muito, vivia meio cansada disso. E armou um plano perfeito.

 Saiu de tardinha e voltou após o marido já estar em casa, de modo que a visse estacionar na porta (antes, pedira à filha de 20 anos para estacionar o carro da mesma na rua de trás; a filha era de seu primeiro casamento).
Entrou toda alegrinha, jantaram, tomou banho e depois disse ao marido que iria dormir com a filha a seu pedido, pois queria que assistissem o filme “As Pontes de Madson”, juntas. O cara, nem aí. Deve ter gostado, pois ficava horas vendo futebol na cama.
Ela então se pintou, se perfumou e pulou a janela do quarto da filha, o carro devidamente preparado para a fuga. Passou a noite toda fora. Quando chegou, o dia quase amanhecia, a rua vazia, fazia frio. Entrou pela janela, colocou o pijama que nem o Super Homem faria após salvar a vida de alguém pela noite; e foi fazer o café da manhã para todos.
Ria por dentro, mas ao mesmo tempo sem saber se agira direito, especialmente com a filha, obrigada à cumplicidade. Mas aquilo não se tratava de moralidade, mas de mulherice!

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ÍRIS, ESSE ERA O NOME DELA

“Iris, esse era o nome dela. Iris. De sandálias tipo chinelinhos dourados, rasteirinhos, com as unhas pintadas de um vermelho escarlate”… Assim começa mais um texto da infância de Valentina, naquele ônibus escolar.

Iris era jovem,tipo 20 e poucos anos. Baixinha, cabelos lisos, voz um pouco anasalada, mas grossa. Tova vez que falava, os dedos seguiam seus pensamentos, se contorcendo. Assim parecia. Tem gente que é assim, fala e, antes da resposta, balança a perna, pisca e olha para o lado, coça. Iris deslizava os dedos no chinelinho de fundo dourado, fazendo aparecer aquela sola gasta. Mas tinha ali uma felicidade meio pueril… Ainda assim, era um tipo de mulherice, já que todos esses trejeitos ocorriam quando puxava assunto com o motorista, Seu Arapuã: “Pois é, né, Arapuã? Aquele lance…”, dizia quando o papo cessava, já que ele, às vezes, não prestava muita atenção.

Quando se diz que mulherice começa na infância é isso. Aquela sandalinha um tanto chinfrim com aquelas unhas que ultrapassavam a linha dos dedos, gerava um fascínio em Valentina, aquele pé balançando, as unhas…
Desde pequena já percebia algo estranho no ar, o que seria uma mulherice. Contou essa história para sua mãe; juntas, sempre que a situação pedia, uma delas dizia; “Pois é, Arapuã, é aquele lance”!

Valentina não se tornou uma mulher interessante à toa. Teve escola com sua mãe, uma outra danada, de tanta mulherice!

(Essa história é verídica; foi lembrada por uma amiga, Ruth Marina,com quem compartilho a autoria, especialmente das primeiras frases)

(Imagem:futilidadesdiadia.blogspot.com)

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