MULHERICES FOREVER (homenagem à Guégue e Niz Pólis)

Eram duas amigas, aliás primas-irmãs. Já passavam dos sessenta anos, mas ainda curtiam a vida e a companhia preciosa uma da outra. Cheias de mulherices, como estarem bem vestidas e usarem chapéus, não perdiam o hábito de saírem para lanchar ou mesmo de viajar para a Europa, pois Estados Unidos já havia se tornado punk demais para elas.

Amavam inventar histórias. Quando iam para Veneza, cidade sempre visitada, riam dos romances tórridos com que sonhavam quando eram casadas ainda, antes de se tornarem viúvas. Se imaginavam encontrando um homem que lhes pegassem a mão e as conduzisse a uma gôndola. Quando em Gramado, seria um gauchão daqueles que lhe puxariam para dançar batendo botas e dando-lhes apertos pela cintura.

Desde crianças (tipo com quatro anos) eram dadas a essa brincadeira: contar histórias uma para a outra, repartindo fantasias e sonhando juntas. Até quando uma ia ao banheiro, a outra acompanhava e contava histórias de elefantes que invadiam o pátio do jardim de infância e a outra, sentada no vaso, acreditava. Mas a que contava também.

Na juventude sonhavam com um Lô Borges romântico ou um surfista gato. Entre os vinte e trinta se casaram e tiveram uma filha cada uma. Aos trinta e poucos, aspiravam apenas curtir uma praia e assistir comédias românticas para alimentar sonhos e alegrias. E assim foram, juntas, amigas; aos quarenta e poucos nem precisam mais falar para saber o que a outra pensa. Certa vez riram tanto no Mac’Donalds que nenhuma pessoa se sentou à mesa ao lado, com olhar de estranhamento.

Suas filhas únicas as amam, e ainda bem que também se amam, são amigas, aliás, como irmãs, primas-irmãs.

Hoje, já com muita idade, ainda riem juntas, criam histórias, relembram outras, as vividas e as inventadas, bebem Coca Diet, comem salgadinhos finos e curtem seus modelitos parecidos, tal como faziam quando bem pequenas, quando usavam, como se fosse um pacto de sangue, cada qual um pé do chinelo florido da outra, formando pares compostos por Havaianas vermelha e azul.

E lá se vão, pela vida afora, repletas de mulherices, enquanto as Parcas continuarem a tecer o fio de suas vidas.

(Imagem de Ruth Orkin)

 

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2 Comentários

Arquivado em Amor, Comportamento, Mulher, Príncipes, Princesas, Sentimentos

2 Respostas para “MULHERICES FOREVER (homenagem à Guégue e Niz Pólis)

  1. Cristina Medeiros

    Eu até vi as 2 nessa foto!!hahah

    • EU TAMBÉM, NA MESMA HORA EM QUE VI; ME LEMBREI DE QDO EU E ELA, AOS 15 ANOS MAIS OU MENOS, VIMOS DUAS SENHORINHAS DESCENDO DE UM ÔNIBUS, A MAIS MAGRINHA AJUDANDO A MAIS GORDINHA, E NIZ PÓLIS DISSE: “GUÉGUE, OLHA NÓS DUAS NO FUTURO; VC É A MAIS MAGRINHA!”

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