EU POSSO SER VALENTINA

Valentina tem mais ou menos 46 anos. Separada, independente financeiramente como muitas mulheres da sua geração, ela já está certa e convencida de que não existe homem perfeito, maravilhoso, um príncipe encantado. Já superou essa fase de encontrar a alma gêmea: “- Isso está por fora!”, ela diz sempre para as amigas.

Meio-dia e pouco, trânsito ligeiro em São Conrado, Valentina olha para o lado, e lá está ele. Um homem de 50 e poucos anos, vidro aberto para o insulfilme não esconder suas intenções. Óculos escuros, sol, céu azul no Rio de Janeiro, mas poderia ser em qualquer lugar. Charme ocasional ou premeditado? Não sei, não… Homem que paquera de carro tem sempre em mente que precisa ser charmoso, ter aquele “quê” de gato, de pantera, aquela coisa forte, mas suave ao mesmo tempo, aquela coisa que te faz pensar que ele nunca fez isso com ninguém, só com você.

Marcelo emparelha, está certo de que Valentina é um encontro. Ela, logo de início, não. Pensa “Ai, meu Deus… não acredito”. Sentiu-se desprotegida sem a maquiagem da noite, que é como se sente mais bonita e sensual, e também quando é hora de paquera, de flerte… Não que ela não saiba que é linda, interessante e feminina com sua voz rouca, seu cabelo castanho cheio, liso e pesado sobre os ombros, fio reto, corpo malhado diariamente. Mas quando um macho chega assim, decidido, deixa a gente meio sem saber como abrir a guarda, se podemos fazê-lo, se estamos prontas naquele momento. O fato é que tudo isso parece ser parte de uma maldição: é bem nesse dia que você não está com aquela roupinha sexy ao mesmo tempo despojada, que lhe cai tão bem de dia, que você está sem cabelo escovado, que saco!!!

São Conrado, sol, aquele homem insistindo, ela com medo de assalto, lógico, mas o carro, o relógio, aquele óculos, de novo o sorriso branco pedindo para ela parar, não deixavam dúvida da cantada eminente. Ela sempre flertou no carro, mas parar para falar, nunca! Mas por que não? Se não desse certo, seria um segredinho dela, como todas nós temos, não é? Até mesmo aquela mulher mais reprimida ou oprimida, guarda no fundo daquele baú de prata todo cheio de corações trabalhados e forrado de veludo roxo alguma coisa que lhe é estritamente particular, mas que ninguém nunca vai saber. “Nunca” é forte demais, mas essas jóias que se guardam são tão preciosas que, se forem mostradas, poderão perder seus encanto e brilho imediatamente, aos olhos de quem não as guardou num dia de sonhos ou de desconsolo.

Parou em frente ao Shopping Fashion Mall, ele logo atrás. Saltou, lá vem ele, ela olhando pelo retrovisor, “corpão, alto, ih! meio morenão, nunca namorei um cara assim tão grandão… Meu ex marido, louro e branco daquele jeito, vai me matar…”, riu por dentro vaidosa. E isso era só o começo. Começo, início, primeiro passo incerto, mas no ar corre um vento fresco e cor de folha que parece enfeitiçar os dois. Parecem animais por um momento: uma pantera e uma onça. Lindos, fortes, flexíveis, sexys… Em qual lugar poderão chegar depois que saírem dali, daquela calçada de onde sobe uma onda de calor? Será que ela seria mal julgada? Valentina chegou a cogitar em não dar o telefone para um homem que a paquerou na rua, “Tá louca?!” Não a perdoariam… O ex-marido brancão (meu Deus, que fantasma é esse?) vindo na cabeça… “Vão pensar que eu sou uma descontrolada, tarada, com falta de homem?”

O que fez Valentina parar o carro? E Marcelo em insistir que ela parasse, sem nem mesmo saber como era o corpo dela? Coisas de homem – Homices – e coisas de mulher – Mulherices – como dizia um ex caso meu, hoje amigo, cujo tom ao dizer tais palavras não era pejorativo, apenas sintético e divertido e bem cheio de homice no pensar. Homem gosta de conquista e mulher de ser conquistada. Príncipe no cavalo branco, princesa dormindo enfeitiçada esperando ser despertada. E Marcelo deu-lhe aquele beijo!

Começaram a namorar, mas antes de você, leitora(or), ficar animada(o) com essa história, vou logo dizendo que o romance durou 4 meses e foi como um meteoro incandescente mas que um dia se chocou com Marte e desapareceu. Não sobrou nem poeira. “Só 4 meses?”, perguntarão alguns. Não, o suficiente, eu diria, para que Valentina, aquela que não acreditava mais em príncipe e homem perfeito, se esquecesse disso e voltasse a esperar na sacada de sua varanda a hora de jogar suas tranças para que ele por elas subisse.

Valentina passou a se sentir a mulher mais magnífica do mundo, e não era para menos. Marcelo sabia cozinhar e, quando o fazia, era aquela coisa toda: ele de avental, ela sentada na pia tomando vinho com ele, muito assunto, muitos beijinhos, tudo muito sexy, aquela sensação de parceria, uma delícia. Ela nunca pensara que poderia se divertir tanto, ser amada assim, ser desejada, ser amiga, tudo!

No sexo, então, eram imbatíveis! Ele a fazia se sentir linda, suas mãos eram grandes e firmes, nunca vinha para perto dela por trás, já passando a mão daquele jeito rapidinho nos seios, ou longo querendo meter o dedo, e créu! Não… Ele era atencioso, cada trepada era única, sempre tudo muito devagar e intenso, parecia coisa de filme, beijos longos, cheios e profundos, pegava na sua nuca com força, sentindo a pressão nos cabelos, o último lugar em que ele tocava era no sexo dela, e só o fazia quando já se estava tonta de tanto tesão, ela quase implorando, era um espetáculo… Príncipe e princesa… Castelos no ar… Homem sem pressa, sem pressa para aproveitá-la, sorver cada gota daquela coisa líquida e densa que fluía por dentro de seu corpo macio e forte. Certa vez, num conto de Isabel Allende, ela descreve os barulhos que vinham do quarto de uma mulher fazendo sexo como sons de águas subterrâneas. Perfeito.

Mas houve um dia em que ele não ligou como de costume. E foi assim, de uma hora para outra, sem ter aquela coisa de ir esfriando devagar. Foi assim, pá-pum! Valentina estranhou, pensou que algo estava acontecendo com ele, e estava, mas só que não era um acidente, não estava no hospital esperando que ela chegasse. Ele sumira.

Quatro dias depois de completa agonia, de tantos recados que ela deixou em todas as secretárias eletrônicas possíveis, liga Marcelo. Voz fria, timbre quase irreconhecível, distante, nem parecia aquele príncipe-no-cavalo-branco. Só disse o seguinte: que não era homem para ela, que não a merecia, coisas desse tipo. Coisas que quem já teve paixão assim sabe como é quando o homem quer terminar contigo. E sumiu. Simplesmente, sumiu.

Valentina também sumiu. Um cadafalso se abriu e a lançou nas profundezas da Terra, com muita lama sujando aquele seu cabelão lindo. Passou a se achar uma merda, um coco, uma mulher que não presta para nada, nem para prender um homem. Culpava-se por ele ter ido embora, alguma coisa ela fez. Ai, nós mulheres acatando esse ideário de que “a mulher sabendo levar…” (morro de raiva disso, gente!).

Mas de dentro daquele buraco, com o sofrimento que a cobria como terra, nada, nada foi suficiente para ela não perder as esperanças de reencontrá-lo. Ela, aliás, ainda o procura, liga quando está só à noite, e ele atende e a dispensa com carinho, mas dispensa. As amigas já não aguentam as mesmas histórias: da perseguição no carro, do vinho, dos jantares, do sexo…  E ela sente pena de si mesma, acha que é uma tola, mas gosta dele, o que fazer? Se ele quisesse voltar, ela aceitava na horinha, nem que fosse para terminar com ela de novo, mas seria só para tê-lo mais um pouco perto, para ela acreditar que é maravilhosa.

Acho que já vimos essa história muitas vezes. Parece até que foi conosco! E sempre nos pegamos falando que príncipe encantado não existe, que homem é tudo igual etc. Mas basta algum deles rascunhar a performance de Marcelo, que nós logo estamos dispostas a reconsiderar. O que será que acontece?

Esse texto não tem a pretensão de resolver o problema da Valentina nem de mulher nenhuma, e nem de denunciar os homens, pois as coisas não são tão simples assim. E eles são ótimos quando são ótimos e ruins quando ruins. Eu mesma a-do-ro a companhia masculina seja para bater papo furado, seja para o sexo, um cinema, ou para um jantar romântico. Nem eles e, nem nós, “são/somos todos iguais”, e iguais no nosso pior/melhor deles, é o que dizem/dizemos todos, homens e mulheres, quando falam/falamos de homens e mulheres.

“Mulherices” e “homices” à parte, temos muito o que aprender uns com os outros, pois a única coisa que temos em comum é sermos diferentes, e isso vale para TODO MUNDO MESMO!!! Vejamos sobre o que poderemos refletir para ressignificar nossa existência, nossa visão de mulher, e até de homem, quem sabe? Dialogarei com Valentina a todo instante, construindo janelas de onde se poderá, às vezes, enxergar um céu azul lá fora, ou uma tarde fria e cinzenta, pois sofrer também faz parte de viver. Prontos?

Imagem mulheresdicas.com

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7 Comentários

Arquivado em Amor, Comportamento, Homem, Mulher, Príncipes, Princesas

7 Respostas para “EU POSSO SER VALENTINA

  1. MARCIA PENNA

    Claudinha, viva a modernidade e sua velocidade!
    O Blog ficou maravilhoso. Continue com seus escritos, seus registros, sua maneira tão própria de olhar a vida: ora como expectadora, ora como coadjuvante, ora como protagonista, mas sempre antenada! Sempre falo , ou melhor refiro-me a você como uma pessoa muito chique.Somos muito diferentes, mas essa diferença nos aproximou lá pelos idos de 1986 , se não me falha a memória. Nos reencontramos, agora, 2012. Belo reencontro, Continua chique , alegre e as caras e bocas de sempre! Muito bom vê-la diariamente e compartilhar com você as minhas , as nossas alegrias, tristezas, compartilhar a alegria e a dureza de viver, mas sem perder a
    ” elegância” . rs rs

    • NOSSA, QUE LINDO ISSO DE QUE EU/NÓS PODERMOS SER TUDO ISSO AO MESMO TEMPO EM NOSSAS VIDAS: EXPECTADORAS, COADJUVANTES, PROTAGONISTAS…É DISSO QUE ESTOU MESMO FALANDO, E QUE CADA PAPEL DESSE REQUER A CONDIÇÃO DE ESTARMOS COMPARTILHANDO HISTÓRIAS, QUIÇÁ, A MESMA.

  2. Ana Magalhães

    claudinha,
    Adorei o Blog! Me diverti muito lendo o texto da Branca de Neve. Quanto ao espelho da madastra de Branca de Neve. Acho que ele é gay,rsrsrsrsrsrs.Que danadinho!
    Bjs,

  3. Ana Magalhães

    Claudinha,
    O texto “Eu Posso Ser Valentina” só vc poderia escrever. Sem medo de se mostrar, falar o que muitas já viveram. Acho que todas fomos em algum momento de nossas vida um pouco ou muito Valentina. Confesso fui só um pouquinho! rsrsrsrs. Puxa, como é bom amar, ser amada, terminar poder recomeçar ou apenas ter o que contar para um amigo. Amei! bjs, Ana Magalhães.

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